terça-feira , 22 agosto 2017

Após conseguir emprego, ex-morador de rua reencontra família no ES

rmãos se reencontraram após Delair aparecer em uma reportagem, que contava a história de quatro ex-moradores de rua que conseguiram emprego em uma lanchonete na Praia do Canto.

Delair reviu o irmão Olair depois de mais de 22 anos e conheceu a cunhada Jade e o sobrinho Bryan (Foto: Guilherme Ferrari/A Gazeta)Delair reviu o irmão Olair depois de mais de 22 anos e conheceu a cunhada Jade e o sobrinho Bryan (Foto: Guilherme Ferrari/A Gazeta)

 

té a semana passada, o atendente Delair Pereira de Freitas era um ex-morador de rua que tentava aos poucos se reconstruir, com um trabalho recém-conquistado, e com o objetivo de ter condições de sair do abrigo noturno em Vitória para um lar próprio. Hoje, ele se perde em nomes e lembranças de familiares enquanto conversa com o irmão Olair, a quem ele não via há pelo menos 22 anos.

Os dois se reencontraram após Delair aparecer em uma reportagem, que contava a história de quatro ex-moradores de rua que conseguiram emprego em uma lanchonete na Praia do Canto.

“Uma ex-namorada de um irmão meu viu a matéria e entrou em contato com uma irmã minha”, conta Olair Borges de Freitas, 55 anos.

Com a informação de que Delair estava no abrigo noturno de Vitória, a família correu para lá na última quinta-feira (3). “Na hora, não choramos. Fiquei foi sem palavras. Depois não consegui nem dormir pensando nisso tudo”, relata Delair.

Apesar da felicidade da reunião, a família não esconde o lamento. “Fiquei muito triste quando soube que ele morou na rua. Até hoje me pergunto por que ele não nos procurou. Se ele tivesse pedido ajuda, nós teríamos ajudado”, afirma Olair, que vive com a família em Cariacica, onde mantém um salão de beleza.

Ele não procurou antes a família paterna, ali representada por Olair, pois achou que não teria ajuda, já que a família de sua mãe, já falecida, não lhe socorreu em outra ocasião.

“Ficamos com medo de ele ter virado traficante. A gente também imaginava que ele tinha morrido”, completa Olair sobre os receios da família.

Os irmãos Delair e Olair planejam rever mais parentes (Foto: Guilherme Ferrari/A Gazeta)Os irmãos Delair e Olair planejam rever mais parentes (Foto: Guilherme Ferrari/A Gazeta)

Trabalho

Delair faz parte de grupo de ex-moradores de rua contratados pelo McDonald’s da Praia do Canto, em Vitória. Ele deixou as ruas há pouco mais de um mês, quando começou a trabalhar. Antes disso, viveu 20 anos nas ruas de Ipatinga, Minas Gerais, e dois anos nas ruas de Vitória.

“A prefeitura de lá (Ipatinga) estava ‘varrendo’ todo mundo, dando passagem. Na primeira oportunidade, vim para cá. E fiquei dois anos na rua.” Em Ipatinga ele deixou uma filha, que pretende um dia rever.

Como faz apenas uma semana que a família voltou a se ver, não foram poucos os momentos em que os dois se esqueciam da entrevista e conversavam entre si. “Estamos descobrindo as coisas ainda”, justifica Delair.

Com mais de 22 anos de separação, é natural também a descoberta de notícias ruins. Só na última semana Delair soube que um de seus irmãos, o Aloir, morreu atropelado em 2000.

“Fiquei meio pasmo. Foi um choque. Não imaginava. Mas boa parte está aqui, Deus sabe o que faz”, diz Delair, resignado.

Mas há muito reencontro ainda pela frente. Só de irmãos, Delair tem nove. E os sobrinhos? “Aí não dá nem para calcular”, diz Olair. E há o pai também, de 85 anos, que Delair dizia, sem explicar o motivo, ter perdido anos atrás. “Bom saber que meu pai está vivo ainda. Graças a Deus.”

Delair Pereira de Freitas conseguiu emprego como atendente em lanchonete (Foto: Edson Chagas/A Gazeta)
Delair Pereira de Freitas conseguiu emprego como atendente em lanchonete (Foto: Edson Chagas/A Gazeta)

Vida nova

Em Ipatinga, Minas Gerais, Delair se casou, teve uma filha, separou-se, saiu do emprego e mergulhou de vez nas drogas.

Ficou 20 anos nas ruas de Minas e mais dois nas de Vitória. Até que conseguiu há um mês a chance que queria, que era ter a carteira de trabalho assinada e poder então alugar um local próprio, além de reencontrar a família.

Como foi o reencontro?

Eles (o irmão Olair e a cunhada Jade) foram ao abrigo. Na hora, não choramos. Fiquei foi sem palavras. Depois não consegui nem dormir pensando nisso tudo.

Por que não os procurou?

Já havia buscado ajuda com os familiares da minha mãe, mas não deu certo. Achei que não conseguiria com eles (a família paterna) também.

Você continua no abrigo noturno?

Sim, posso morar com o meu pai também. Ele não tem culpa de nada do que aconteceu comigo. Mas ainda vamos nos encontrar.

G1