sábado , 24 fevereiro 2018

Quadrilha dos EUA vendia material descartável reutilizado em hospitais no ES, diz polícia

Foi descoberto, ainda, o envolvimento de uma terceira empresa, a Esterileto, contratada pela Golden para esterilizar os produtos.

‘Operação Lama Cirúrgica’, que investiga a falsificação e fornecimento de materiais hospitalares descartáveis reutilizados em um hospital particular na Serra, Grande Vitória, apontou uma quadrilha dos Estados Unidos como responsável pela venda dos produtos à empresa Golden Hospitalar.

Dois empresários e um enfermeiro foram presos, suspeitos do esquema, no dia 16 de janeiro. As investigações apontam que os produtos que deveriam ser usados apenas uma vez foram reutilizados 2.536 vezes.

Foi descoberto, ainda, o envolvimento de uma terceira empresa, a Esterileto, contratada pela Golden para esterilizar os produtos.

“Há envolvimento de médicos, de empresários, empresas que vendem esses materiais e são utilizados em cirurgias ortopédicas, de enfermeiros, instrumentadores, que utilizam, basicamente, materiais cujo reuso é proibido”, falou o secretário de Segurança Pública, André Garcia.

Ligação telefônica

Num telefonema gravado com a autorização da Justiça, Marcos Stein, um dos donos da Golden Hospitalar, conversa com um integrante da quadrilha que encomendou o material. A conversa aconteceu logo depois que a polícia evitou uma cirurgia em que os instrumentos seriam usados.

“Eu passei um problema, agora, com a Vigilância Sanitária e outros órgãos competentes e eles estão no meu pé”, falou Marcos, pelo telefone.

Ele fala que quer a nota fiscal da importação fraudulenta, mas, com medo, também quer devolver o material. “Com essa auditoria que eu estou aqui na empresa, ela só pode entrar com nota”, disse, na ligação.

O integrante da quadrilha responsável pela venda dos produtos fala que a venda é ilegal e sem nota fiscal.

“O que eu combinei com você foi de eu te mandar o material que eu não tinha nota. Eles não aceitam devolução, e eu já paguei sobre o transporte desse material. A gente vende desse jeito, deixando claro que não é um material legal. O mercado sabe”, destacou.

Terceira empresa

A dona da Esterileto, contratada pela Golden para esterilizar os produtos, disse à reportagem que a culpa do envolvimento da empresa é de um ex-sócio dela. “O que houve foi uma falha, pela gestão antiga, da entrada desse material na empresa”, falou a sócia da empresa, Mônica Marinhos.

Ela disse que tomou medidas para evitar que isso aconteça de novo. “A gente está sendo até muito chato com os clientes, quando alguém tenta enviar para a gente alguma coisa que não pode ser reprocessada”, contou Mônica.

Envolvidos

Na busca feita na sede da Golden Hospitalar, a polícia encontrou carimbos de três médicos e um receituário assinado e carimbado por um quarto médico, só que em branco.

“Isso é um documento do médico, particular do médico e ele não pode fazer. É uma prática muito suspeita”, falou o vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES).

Os quatro médicos estão sendo investigados, e pacientes que eles operaram no Hospital Metropolitano estão preocupados. A aposentada Nilza Maria Plácido teve que fazer uma cirurgia na mão do final de 2017.

“É horrível saber. A sensação é muito ruim, porque, na verdade, eu estou correndo risco. E se tivesse dado algum problema mais sério?”, falou.

Riscos

A gerente da Vigilância Sanitária da Serra, Geane Sobral, falou que as consequências podem se manifestar anos depois.

“Os riscos vão desde uma infecção por vírus, por hepatite, até a micobactéria. Esse dano que pode ser causado à saúde desse paciente nem sempre vai aparecer hoje, ele pode aparecer daqui a 10 anos”, falou.

Hospital

O Hospital Metropolitano disse que suspendeu o recebimento de produtos que eram adquiridos por planos de saúde das empresas mencionadas no inquérito.

Destacou que está apurando a eventual responsabilidade de profissionais citados nas investigações.

O médico Nilo lemos neto afirma que o receituário encontrado na empresa Golden tinha a finalidade de cumprir o fluxo burocrático para confirmação de materiais que ele usou em cirurgia específica.

Fonte: Portal G1