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O café solúvel brasileiro viveu, em 2025, um ano de contrastes. Enquanto as exportações sentiram o impacto direto da tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos, o mercado interno surpreendeu e alcançou recorde histórico de consumo.
De acordo com o Relatório do Café Solúvel do Brasil 2025, elaborado pela Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), o país exportou 85,082 mil toneladas no ano passado, o equivalente a 3,688 milhões de sacas de 60 kg. O volume representa queda de 10,6% frente às 95,221 mil toneladas embarcadas em 2024.
Apesar da retração em volume, a receita cambial cresceu 14,4%, atingindo o recorde de US$ 1,099 bilhão.
“Atribui-se esse aumento no valor, apesar da queda no volume, à valorização da cotação da matéria-prima, tanto dos cafés arábicas quanto dos canéforas (conilon e robusta), o que elevou o preço do solúvel no mercado”, explica Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Abics.
O ponto de virada veio no segundo semestre, com a introdução da tarifa de 50% sobre o café solúvel brasileiro importado pelos Estados Unidos.
“Até julho, vínhamos muito bem. Já tínhamos batido recorde em 2024, recuperando as perdas da guerra entre Rússia e Ucrânia, que eram mercados estratégicos para nós. A expectativa era repetir ou até superar o recorde em 2025. Mas, no fim de julho, veio a bomba da tarifa, e o solúvel entrou no meio.”, relata Lima.
Segundo ele, o impacto foi imediato. “De agosto a dezembro, a queda foi de 40% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Se olharmos apenas os meses em que a tarifa esteve vigente, a perda de volume para os Estados Unidos chegou a 54%. É uma redução muito expressiva.”
No consolidado do ano, a retração para o mercado americano ficou em 15%. Ainda assim, o impacto estrutural preocupa.
“Os Estados Unidos são o maior comprador de café solúvel brasileiro há mais de 60 anos. São clientes fiéis, consolidados. Até 2024, cerca de 30% a 32% de todo o solúvel consumido pelos americanos era brasileiro. Estamos falando de uma possível perda de quase US$ 250 milhões por ano. É algo muito sério para o setor.”
Concorrência avança, especialmente o Vietnã
Com o produto brasileiro mais caro devido à tarifa, importadores passaram a buscar alternativas. E quem tem avançado é o Vietnã. “O Vietnã vem crescendo vigorosamente. Já tem mais de 12 unidades industriais e está aproveitando esse momento. Como as tarifas deles com os Estados Unidos são menores, acabam ganhando competitividade. Além disso, têm acordos comerciais importantes na Ásia, que é um mercado que cresce cerca de 6% ao ano no consumo de solúvel.”
Ele destaca que o problema vai além dos EUA. “O Brasil sofre com tarifas em vários mercados por falta de acordos comerciais. Não é mais uma questão de qualidade. O Brasil não tem problema de qualidade, somos líderes há 60 anos. O problema hoje são as tarifas. É isso que está definindo quem ganha ou perde mercado.”
Embora países como Argentina (+40,2%), Rússia (+9,8%) e Colômbia (+178,2%) tenham ampliado compras, o redirecionamento não compensa a perda americana.
“O Brasil já exporta para mais de 100 países. Esses aumentos que estamos vendo são orgânicos, fazem parte de uma estratégia comercial que sempre existiu. Mas substituir um mercado do tamanho dos Estados Unidos não é simples nem rápido. O volume que eles compram é muito grande.”
Segundo Lima, o setor tem atuado em várias frentes. “Estamos fazendo muitas incursões junto ao governo brasileiro para que o tema não saia da pauta. Também estamos envolvendo nossos clientes nos Estados Unidos para que ajudem nas articulações com o governo americano. Não é fácil. O cenário lá está bastante conturbado. Mas precisamos insistir.”
Se lá fora o cenário é desafiador, dentro de casa o café solúvel ganhou força. Em 2025, o consumo interno atingiu 27,008 mil toneladas (1,17 milhão de sacas), crescimento de 9,5% frente a 2024, o melhor resultado desde 2016.
“O mercado interno foi uma surpresa muito positiva. Desde 2016, crescemos em média mais de 4% ao ano, mas 2025 foi realmente especial. O brasileiro está descobrindo o café solúvel. E há também a questão do preço: a inflação acumulada do solúvel ficou em 34%, enquanto o torrado e moído acumulou 75%. Isso certamente influenciou o consumidor.”
Espírito Santo já se consolida como polo
Outro ponto destacado pelo executivo é o avanço do Espírito Santo na cadeia industrial do solúvel. O estado acumula três indústrias de café solúvel: a Realcafé, a Café Cacique e a OFI (Olam).
“O Espírito Santo já é o maior fornecedor de matéria-prima para o café solúvel, principalmente pelo conilon, que representa cerca de 80% da base do produto. Hoje temos três estados produtores: Paraná, São Paulo e Espírito Santo. E o Espírito Santo praticamente já se igualou aos demais em volume industrializado.”
Ele vai além: “Se vier mais uma fábrica para o estado, o Espírito Santo ultrapassa os outros e pode se consolidar como o maior produtor de café solúvel do Brasil. Não é cedo para dizer que o estado já é um polo.”
Mesmo diante das turbulências, o setor mantém ritmo de investimento. “Nos últimos seis anos, o setor investiu cerca de R$ 2,5 bilhões em ampliação de plantas, modernização tecnológica e sustentabilidade. É uma indústria extremamente tecnológica, que exige capital intensivo.”
Para 2026, além da expectativa de redução da tarifa americana, há preocupação com a perda do crédito presumido com a Reforma Tributária.
“Nós precisamos manter diálogo com o Executivo e o Legislativo para mitigar essa desvantagem competitiva. O setor é resiliente, como mostrou o recorde de receita em 2025. Mas o cenário geopolítico, comercial e tributário está cada vez mais complexo. Não podemos perder competitividade por questões que não têm relação com a qualidade do nosso produto.”
Fonte: Folha Vitória




































