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7 de outubro de 2026Comercialização de eletrificados ganha ritmo, surpreende montadoras e chega a 19,8% no país
Um milhão de veículos híbridos e elétricos já circulam no Brasil. A marca foi alcançada em setembro, mas o dado mais relevante é a velocidade dessa transformação. Em um ano, a participação dos eletrificados nas vendas mais do que dobrou, de 9,2% para 19,8%. O avanço surpreendeu a própria indústria instalada no país, que perdeu terreno para os chineses.
Executivos do setor admitem ter errado nos cálculos: o volume atual era esperado apenas entre 2029 e 2030. Agora, as marcas chinesas partem para uma nova etapa, com produção no Brasil.
Às vésperas da eleição presidencial, a principal discussão no setor não é mais se os chineses vieram para ficar, mas quais serão as regras do jogo. O mercado aguarda sinais sobre a disposição do próximo governo de manter incentivos para a importação de veículos semimontados ou adotar políticas que privilegiem conteúdo local.
O volume da frota eletrificada ainda é pequeno quando comparado à frota nacional de veículos leves, que passa de 44 milhões. Mas, nas vendas, já representa um quinto. Além disso, a velocidade do crescimento chama a atenção.
Levou 13 anos e sete meses para que os primeiros 500 mil carros híbridos e elétricos fossem vendidos no país. O segundo meio milhão veio em apenas 14 meses, entre agosto de 2025 e setembro de 2026. O brasileiro levou algum tempo para sentir segurança para trocar o carro a combustão por um híbrido ou abastecido numa tomada. Mas, quando tomou gosto pela novidade não voltou mais atrás. Foi atraído pelo pacote que soma tecnologia, energia alternativa a custo mais baixo e carros com design avançado a preços do convencional a combustão. Só chineses conseguiram fazer isso.
“Em alguns lugares o cara que compra um carro a combustão deveria receber um prêmio”, disse o presidente da Stellantis na América do Sul, Herlander Zola, na terça-feira (6), logo depois que o marco de um milhão foi divulgado pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). O executivo refere-se a locais como Pernambuco e Distrito Federal, que oferecem isenção de IPVA por mais tempo para quem tem um eletrificado.
A Stellantis, maior montadora do país, não tem ainda carros que podem ser carregados em tomadas, o segmento que mais cresce entre os eletrificados. Os 100% elétricos e os chamados híbridos “plug-in” somaram 80% das vendas em setembro. “Isso demonstra que as pessoas já estão familiarizadas com os carros nas tomadas. Conheceram, gostaram e estão apostando cada vez mais na eletrificação”, afirma Ricardo Barros, presidente da ABVE.
Segundo a ABVE, se os híbridos leves entrassem na conta a participação dos eletrificados no mercado alcançaria 23% em setembro. Mas a entidade não considera esse tipo de veículo eletrificado por não contar com tração elétrica.
Bastos também se surpreendeu com a velocidade da eletrificação no Brasil. Ele diz que as previsões iniciais indicavam chegar aos números de hoje em 2030. Zola esperava que isso acontecesse em 2029.
“O que mais preocupa não é a velocidade do crescimento, mas o mix”, diz Zola. As montadoras previam que a eletrificação no país começaria por híbridos leves (veículo no qual o motor elétrico só ajuda o motor a combustão para garantir mais economia) e anos depois passaria para os que podem ser abastecidos em tomadas. Ao oferecer preços competitivos, os chineses aceleraram o processo.
O aumento dos preços do petróleo contribuiu ainda mais. “Se o sujeito pode ter um carro que carrega na tomada pelo mesmo preço de um a combustão, qual ele vai escolher?”, diz Zola. “A indústria ocidental errou na leitura.”
Praticamente donas da tecnlogia da eletrificação e confiantes, as marcas chinesas começaram a partir para a produção local. No ano passado, BYD e GWM inauguraram fábricas próprias. Em setembro deste ano, começaram as parcerias com montadoras já instaladas. A Geely começou a produzir carros elétricos na mesma linha onde são fabricados modelos a combustão da Renault, em São José dos Pinhais (PR). Até o fim deste ano, a GAC iniciará a produção na unidade onde o grupo brasileiro HPE fabrica carros da Mitsubishi, em Catalão (GO).
A Stellantis ainda vai anunciar quando começará a produzir modelos da parceira Leapmotor e Zola diz que fará parcerias com “mais uma, duas ou até mais 10 chinesas para garantir nível de competição na região”. Uma delas pode ser com a Dongfeng. A General Motors também iniciou a produção de elétricos de sua parceira na China, a SAIC, numa fábrica multimarcas no Ceará.
A instalação industrial dos chineses levantou uma discussão que se tornou polêmica em julho, quando o governo brasileiro estendeu, até o fim do ano, a entrada de carros semimontados com isenção de Imposto de Importação. A BYD, líder do mercado de elétricos e quarta colocada no ranking geral do mercado, foi a mais beneficiada pela medida por já ter uma fábrica pronta e usar esse método.
Agora, às vésperas da eleição, o debate ganha maior proporção. “Seja de esquerda, seja de direita, o importante é identificar as conversas que teremos com o governo. Caso aumente a produção do que vem da China em SKD (veículo semimontado), teremos um leque de opções. Nós também podemos produzir em SKD com 10% dos 35 mil funcionários que temos na América do Sul”, diz Zola.
Outras chinesas anunciaram planos para produzir no país. “Por que estamos tão confiantes? É por causa do nosso volume de vendas. Com fábrica própria, poderíamos nos beneficiar de diversas políticas governamentais ou municipais, como reduções de impostos. Isso nos permitiria reduzir custos, oferecer mais vantagens aos nossos clientes e ainda apoiar a economia da região”, afirma Peng Hu, CEO da Chery no Brasil.
Segundo Bastos, da ABVE, em 2027, a entidade quer conversar com os ministérios para avançar na infraestrutura pública de recarga, aproveitando a oferta de energia. Além disso, diz, independentemente do governo eleito, ele defende a criação de meios para atrair para o país fabricantes de componentes tecnológicos, hoje concentrados na China. Para isso, segundo o dirigente, a eletrificação precisa estar melhor inserida nos programas do governo voltados para o setor, como o Mover.
Fonte: Valor Globo





































