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10 de agosto de 2026O amor de um pai também pode aparecer nas escolhas que ele faz quando a vida muda de direção. Foi assim com Carlos Clemente, de 41 anos, que decidiu deixar a profissão de vendedor e seguir uma nova carreira, depois que descobriu que o filho Arthur, hoje com 14 anos, era surdo.
Pai solo, Carlos passou a trabalhar com Língua Brasileira de Sinais (Libras) para garantir que a comunicação entre os dois fosse construída desde cedo.
Segundo a psicóloga clínica, professora e especialista em Surdez e Libras, Gabriela Alvarenga, criar um filho sem uma rede de apoio é uma tarefa possível, mas que exige dedicação e equilíbrio emocional. Ela explica que o maior desafio não está no fato de ser homem ou mulher, mas na sobrecarga de assumir sozinho todas as responsabilidades.
“O fato de estar só, que é o mesmo que acomete as mulheres, é a sobrecarga emocional, a responsabilidade de tomar decisões importantes, e de maneira, às vezes, solitária.” Gabriela Alvarenga, psicóloga
É justamente essa realidade que Carlos vive desde 2020, quando Arthur voltou a morar definitivamente com ele, em São Mateus, Norte do Espírito Santo. Entre o trabalho e os cuidados com o filho, ele aprendeu que ser pai vai muito além de garantir o sustento da casa.
Uma decisão que mudou o futuro dos dois
Carlos já conhecia Libras antes mesmo do nascimento de Arthur. Ele aprendeu a língua por causa da então companheira, mãe do menino, que é surda. Na época, porém, o conhecimento era apenas uma ferramenta de comunicação dentro do relacionamento.
Quando Arthur nasceu, Carlos percebeu rapidamente que o filho também poderia ser surdo. A confirmação veio após a realização do exame BERA, teste que avalia a resposta do sistema auditivo aos sons e é utilizado para identificar alterações na audição. Foi naquele momento que ele decidiu transformar a própria carreira. “Depois que ele nasceu que eu decidi trabalhar com isso”, disse.
Em 2012, deixou o trabalho como vendedor para atuar como intérprete de Libras. Mais tarde, cursou Pedagogia e hoje trabalha como intérprete na rede estadual de ensino.
Para Gabriela, essa escolha representa muito mais do que uma mudança profissional. “Quando ele entende que a Libras é fundamental, ele está demonstrando o nível de responsabilidade e de comprometimento com essa vida que foi confiada a ele.”
Segundo a especialista, aprender Libras não significa apenas facilitar o diálogo.
A Libras é a ponte da comunicação, mas você não simplesmente comunica, você acessa o mundo, o universo particular da pessoa surda.Gabriela Alvarenga, psicóloga
A rotina de um pai que exerce dois papéis
A rotina de Carlos também revela uma realidade comum entre pais solos: a dificuldade de conciliar trabalho, responsabilidades domésticas e os cuidados diários com o filho sem uma rede de apoio estruturada.
Hoje, ele mora com a mãe, de 75 anos, mas a relação entre os dois também envolve cuidado. Segundo Carlos, ela já não tem condições de assumir a criação do neto e também precisa de atenção. “Minha mãe veio morar comigo atualmente, mas ela também precisa de cuidados”, contou.
Apesar da sobrecarga, ele faz questão de acompanhar o desempenho escolar do filho, treinar com ele na academia, sair para lanchar e dividir as tarefas domésticas.

Na avaliação de Gabriela, a ausência de uma rede de apoio pode afetar diretamente a saúde mental de quem cria um filho sozinho.
“A rede de apoio dá descanso mental. Quando ele não pode dividir isso, fica hiperfocado na demanda do filho e esquece de cuidar até de si. Para ter uma educação saudável, o adulto tem que estar saudável.” Gabriela Alvarenga, psicóloga
Ela afirma que o acompanhamento psicológico pode ajudar tanto os pais quanto os filhos a organizarem emoções e enfrentarem os desafios da rotina.
Cachorro se tornou parceiro na rotina de pai e filho
Mesmo sem alguém que possa assumir parte das responsabilidades, Carlos encontrou pequenas formas de garantir que Arthur tivesse companhia enquanto ele precisava trabalhar. Uma delas veio de um integrante inesperado da família: Barão, um pastor alemão de oito anos.

Durante os períodos em que ficava sozinho em casa, o cachorro se tornou uma presença importante na rotina do adolescente.
“Às vezes, quando eu ia trabalhar, a companhia muitas vezes dele foi o Barão. Era o guardião dele, ficava lá no meu lugar.” Carlos Clemente, intéprete de Libras
Para Carlos, Barão representa mais do que um animal de estimação. O cachorro ocupou um espaço de cuidado e companhia nos momentos em que o pai precisava se ausentar para trabalhar.
O amor também se aprende pela comunicação
A relação entre Carlos e Arthur sempre foi construída por meio da Libras. Como o pai já conhecia Libras, a língua de sinais fez parte do desenvolvimento do menino desde os primeiros anos de vida.
“Ele aprendeu de uma forma natural, assim como uma criança ouvinte aprende o português falado.” Carlos Clemente, intéprete de Libras
Para Gabriela, esse é um ponto essencial para qualquer família que tenha uma criança surda. “A Libras não é só uma forma de comunicação. Você acessa aquele ser humano, o universo de entendimento e de percepção daquela criança.”
Ela alerta que, quando a família não aprende a língua de sinais, o vínculo pode ficar comprometido. “A comunicação fica limitada. Ela fica superficial. Muitas vezes você não acessa níveis profundos de entendimento”, conclui.
Inclusão ainda encontra barreiras
Mesmo sendo intérprete de Libras, Carlos relata que o filho enfrenta dificuldades para acessar alguns serviços. Hoje, Arthur está sem acompanhamento psicológico porque a família não encontrou, em São Mateus, um profissional que realize atendimento diretamente em Libras.
Segundo Gabriela, essa realidade ainda é comum. “A demanda é muito grande e nem todos os profissionais têm esse preparo para aprender Libras fluentemente e usar isso como ferramenta dentro da profissão”, disse.
Ela ressalta que as dificuldades não se restringem à psicologia. O impacto é geral, o surdo é cidadão e circula por todos os serviços.
Vida transformada pela paternidade
Ao olhar para trás, Carlos acredita que o filho transformou sua maneira de viver.
“Eu acredito que teve uma transformação na minha vida para melhor depois que ele passou a existir. Aprendi a ter mais paciência.” Carlos Clemente, intéprete de Libras
Para Gabriela, histórias como essa mostram que a paternidade é construída diariamente.
“A Libras é só a ponta do iceberg. Ela é a ponte da comunicação, mas por trás dela existe toda uma cultura, um modo de pensar e de enxergar o mundo. Quando um pai decide aprender isso para estar presente na vida do filho, ele demonstra um nível profundo de comprometimento.” Gabriela Alvarenga, psicóloga
Fonte: Folha Vitória





































